contém amor:

À luz

Sou mãe de aluguel das minhas melhores palavras. As gero com prazer e as entrego por amor.

 

Mas elas não tem qualquer destino, não. Não são como essas que publico sem pudor, pobrezinhas. Que saem correndo nuas por ruas rasas, onde todo mundo rela. São as que passo horas fazendo nascer com minha letra deitada e insônias. As que deixo escapar num instante verdadeiro em falha rouquidão e suores. As que só podem ser minhas e só vão para quem eu quero.

 

Eu quero aqueles que consigam enxergar a sutileza arrebatadora de certos filmes.

– e  a delicadeza latente da minha vida, a qual tantas vezes me nego.

 

É que, por mais que seja como um despir de proporções menores, ou justamente por conta disso, é bem mais desconcertante entregá-las. Sempre me acanhei muito mais com um olhar do que com uma porção deles. Prefiro palco a perto. Aperto: abrem-me o peito da onde me  tiram as palavras e deixam tudo mais sufocante.

 

Uma plateia que se resume sempre a um par de olhos que me espreita atencioso e me lê o corpo inteiro antes, em clara consulta ao dicionário tradutor das minhas palavras. Complicado. Na teimosia nata sustento o olhar como se valente eu fosse. Entrego.

 

Não sinto falta delas, mais tarde. Não ligo, nem visito. Não me importa saber se estão sendo bem cuidadas. Podem até ter sido esquecidas, quem sabe. Melhor ainda, que assim jamais poderão ser usadas contra mim numa espécie de parricídio, sempre execrável. Que a bem da verdade eu não as crio para serem eternizadas. Elas fazem sentido apenas no momento em que as deixo e existem apenas para serem sentidas e não guardadas. Se o forem por um momento, que seja breve,

 

que baste.

 

É uma renovação constante que me move. Estarei sempre pronta a entregar novas a quem merece. E a quem não merece também, desde que o meu coração exija. Ele é tirano de mim, cê sabe.

deixe meus pontos no lugar.

Você me tirou pra dançar e eu fui. Eu não pensei, eu simplesmente fui. Mas eu acho que, talvez, a gente tenha girado demais porque, depois, logo depois, não havia mais nada no lugar. Nada. Eu tentei procurar pelas minhas coisas coisas que eu havia deixado ali na mesa que eu havia levado comigo eu sei não ia a lugar nenhum sem elas, mas. Não encontrei. Não encontrei minhas mágoas, meu passado, meus medos. Minha segurança. O que eu sabia da vida. Sabida. Não me importei, eu gostei da vertigem. O que me surpreendeu, entretanto, foi que eu gostei ainda mais do equilíbrio. Esse que você, em seguida, me confiou. E logo me sobreveio calma

(!)

Você pode não saber, mas  minha vida inteira foi gira-ando, gira-ando, sem nunca parar num lugar. E eu passei tempo demais tentando convencer a todo mundo de que não havia mal algum nisso até que, simplesmente, não havia. Eu seria turbulenta do mesmo jeito que não teria olhos azuis. Eu que não iria me acalmar.

Até que me deixei. E eu nem vi como isso aconteceu, só percebi quando comecei a ouvir tudo aquilo que o (meu) barulho não me deixava ouvir. E a sentir tudo aquilo que a mudança constante não me deixava guardar a tempo de sentir. E foi como ler um livro – e um bom. Eu não sei você, mas essa é a minha mais perfeita descrição do que é descobrir, aos pouquinhos, outro mundo.

E não é que tenha sido um mundo mais bonito. Não foi sequer um mundo diferente por si só. Você não me encontrou e deu sentido à vida, nem me apontou o caminho. A verdade é que sentir constante não me deixou mais à vontade.  Não é nada disso. Apesar de ter tanto disso.

É que, nesse desconforto de mundo, que permaneceu austero e ríspido a me machucar, você me deu a calma que me faltava pra enfrentar qualquer coisa, a vontade que eu nunca tive. Que viver num mundo lindo é fácil. Ter alguém que facilite para você e te transforme o mundo é lindo. Mas estar com quem, na mesma estranheza de futuro que tanto já te feriu, te dê vontade de viver mais, tem um quê de intocável.

E absoluto.

 

Se me ponho a pensar muito intensamente no que ocorre a uma mulher, essa mulher única, não tenho porque partir imediatamente e me transformar em outra pessoa. Eu poderia ser muitas pessoas. Serei muitas pessoas de agora em diante. 

Não voltarei a permitir que toda a minha vida e todo o meu coração fiquem presos a uma única mulher; não voltarei a sofrer tanto. A partir de agora, você deverá ser algo mais que uma única pessoa, tem de ser muitas, todas as que conseguir chegar a conceber…

 Anaïs Nin

Tenho em mim tudo o que não terminei. É como se  fosse um findável ser de coisas sem fim. E não me lembro de ter aprendido nada com elas, também; vazio. Nada, nada permanece em mim. Nem eu.  Mas nem falo; só falho. E isso eu faço muito bem. Porque também tenho um pai que me diz ‘ tudo aquilo que tem o seu começo, tem de necessariamente chegar a um final , do contrário você não fica bom em coisa alguma, você só falha’ e eu acho assim: eu acho assim. Mas não acho triste. São metades, são pedaços; é parte. Não sou infeliz. Nem sei se posso, de fato, ser alguma coisa. Ou uma porção delas; nenhuma.

Se eu ao menos retivesse nesse rede de borboletas coloridas com que capto aquelas que ora me encantam, horas mais tarde morrem, alguma coisa delas, se agulhasse num quadro as suas asas, mas… como vem, vão, me deixando apenas a ausência fazer lembrança de mais alguma coisa que veio e não ficou; que eu fui e eu não sou.

Me equivoquei. O que tenho em mim é a ausência de tudo aquilo que comecei – e outrora fui. Não porque foram coisas que, enfim, findaram e tiveram de me abandonar. Mas antes porque, em algum momento, eu me entediei. Eu me entedio fácil. Isso é outra coisa que eu faço muito bem. E caminho tantos caminhos quanto me chamarem, e troco, e não faço questão ou morada de nenhum ou de ninguém. Sou correnteza, ora vento, e quantas vezes pedra. Eu sei que não aprendo, eu sei que não fico. Eu só vivo; só ou não. Eu não acho bonito, fracasso. Eu não acho nada. Eu, surto-mudo.

Mas, se mesmo assim isso ainda te incomodar, pelo menos saiba agora que, desde que te encontrei, já não mais vou como casca, sempre com a forma a lembrar do que um dia foi e hoje nada, sem peso jogada ao dissabor de uma estação. Vou antes como casa do maior amor que já achei. E como tem me dado uma vontade imensa de não ir, de me enraizar em mim.

 

 

Oração. (em 22/11/2011)

Hoje eu assisti a meu pai se arrumando para ir buscar minha mãe no aeroporto. Dias atrás foi a minha irmã pra ir pegar o namorado. Bonitinhos. Podia até fazer das minhas piadas sem graça ou das minhas perguntas idiotas que eles iam rir daquele jeito em que não dá pra negar o bom humor, que dá vontade de sair rindo por aí. E conversando por aí, mas sempre dando um jeito de colocar o nome da pessoa no meio. Não sei., mas comigo é assim. Estamos falando de batatas e eu não me controlo em soltar um “ai, e a mãe do Fulano que queimou a mão no forno esses dias”, de dietas e eu “gente, mas o Fulano tem uma letra que eu finjo que não entendo nada, só pra fazer ele ler pra mim, toda vez”, de assaltos e “o Fulano fala tal coisa to-da ho-ra! Legal, né?” e eu realmente fico assim, interminável.

Mas criei um trauma de aeroportos! Nunca vou esperar ninguém. Não me arrumo, não me animo. Me é sempre pesado, sempre (eu) partida. Até quando chegada. Acho que senti muita falta de alguém pra se arrumar e me esperar. E cheguei muito, (e parti muito também), sem braço pra abraçar, sem bom humor que não para de falar meu nome, que não pode faltar. O aeroporto com seus sorrisos, suas conversas altas e seus abraços apertados me fizeram perceber que eu não sou tão autossuficiente assim. Coisa que cê, Fulano, sempre quis me mostrar! Cê sabia, né?

Mas é que hoje, hoje em que eu aprendi que não sou independente assim, eu também não dependo mais de você. E por isso mesmo talvez possa acreditar que tenha aprendido na hora certa. Porque se fosse com você, naquela época, que eu tivesse percebido, e não com a torturante espera das malas na esteira, me sabendo sozinha, sem ninguém pra ajudar, eu acharia que a minha suficiência fosse completamente sua. E não é. Porque cê… cê, Fulano, é bom demais. Oxi… bom demais. Mas é humano demais, é humano demais também, Fulano.

E você eu não garanto que estaria todos os dias com seu melhor perfume me esperando. Mesmo eu descabelada, perdida, com um casaco nada a ver pra não passar frio no avião, e um sapato mais nada a ver ainda, que eu só estaria usando porque precisava trazer mas não cabia na mala. E inteiramente acabada, e severamente maculada. E errada, e errante. E algoz de todo seu sofrimento… (respira). Mas Jesus estaria. Sempre esteve.

Me volto pra ele, hoje. E agradeço.

sentei num ônibus pra viajar, à noitinha, e como quase sempre é, a esse horário, demorou um tico e um cheiro de excitação, mas logo tudo se calou em silêncio de ar condicionado. exceto por um cochicho lá no fundo que mal podiam conter, contar, e eu mal podia escutar, e um choro sofrido, que, esse sim, eu ouvia de pertinho, pertinho. choro de homem crescido. ah, choro de homem crescido! incomoda mais que choro de criança. se ele ainda chorasse de peito aberto, escancarado, gritado! além de desmascarado, que por mais bizarro que o seja é o que me deixa, filha da verdade, mais confortável, incomodava todo mundo, cúmplice, me dividia esse peso da dor assistida, e daqui a pouco ele cedia ao cansaço e à vergonha. parava. mas assim, fazendo esse esforço doído pra deixar presa a dor que é livre no peito, sentenciá-la, amordaçá-la, assim contendo com força o soluço que não se contem, perturba, perturba… não sei o que faço. se faço. passo da curiosidade natural à curiosidade de quem cospe em papel as histórias dos outros, entro na hesitação em ir ao encontro das lágrimas, tipo mãe, mão, querendo calar a criança, e então à paralisação do que constrange. quando ouço uma voz contida. uma voz mais baixinha que a angústia, mas escuto. e ela está conversando com ele, alguém está sentada ao lado dele e, mesmo sem ver, posso sentir que abraça, abarca, e repete num mantra “calma, você volta, você volta”. e aí eu não sei que horas ele parou de chorar, se gritou, se parou.

calma, você volta, você volta.

porque daí então eu comecei a cantar a volta pra mim também, que nem sabia que chorava por dentro, mas me sabia dentro dum peito (c)errado.

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Como se meus dedos tivessem de caminhar poucos centímetros de lençol para escalar seu quadril. É essa a distância que entrevejo na gente. Não consome o ar, sufoca, desprende. Não pesa… essa sua cintura. Essa sua cintura está logo aqui preu brincar nela. É só fechar os olhos que visualizo a sua curvatura. Às vezes nem isso. Sonho com o caminho que ela faz, acordado. Posso até sentir sua pele macia, os ossinhos da sua bacia sempre saltados. Nunca experimentei, menina, mas já tenho o seu gosto guardado. É gosto de infância, de maresia. De junto, perto, mais perto, no ouvido. Ouço seu ofegar melodiando minhas noites, ditando acordes, me deixando acordado. Acordes acaso ao meu lado, distante, contente, quase realizada. Se eu sussurro daqui e você entende, distância não há de ser essa quilometragem que não nos atrapalha.